André Brasil
A enciclopédia que contém todas as respostas Entro na exposição de Susana Bastos, Rodrigo Borges, Juliana Freire e Roberto Bellini e logo me lembro daquela enciclopédia chinesa, descrita por Jorge Luis Borges. Nela, os animais se dividem em: pertencentes ao imperador; embalsamados; domesticados; leitões; sereias; fabulosos; cães em liberdade; incluídos na presente classificação; que se agitam como loucos; inumeráveis; desenhados com um pincel muito fino de pêlo de camelo; etcetera; que acabam de quebrar a bilha; que de longe parecem moscas.
O que nos desconcerta na enciclopédia borgeana é o fato de que, ali, os seres parecem totalmente solitários, sem que seja possível estabelecer qualquer relação entre eles. Diferentemente, poderíamos pensar que há sim conexões infinitas, ligações invisíveis, que, contudo, ainda não foram abrigadas pelo pensamento (mas que podem vir a ser).
O que dizer, então, destes corpos desmembrados, expostos, abandonados em sua solidão de pedra, de ar, de fogo, de bronze, de plástico, de plasma? Poderíamos não incomodá-los, deixá-los ali, em sua absoluta irredutibilidade, em sua quietude que os tornam nada mais e nada menos do que eles são. Mas, desde o início, estes corpos surgem de um diálogo, que não se constitui de palavras, de argumentos, mas da exposição e do contato entre idéias, afetos, objetos e imagens. Um diálogo que é, antes, uma erótica, porque feito de sensações: do peso e da leveza, da fugacidade e da lentidão, dos traços e de sua ausência. O erotismo é o que nos faz irredutivelmente sós, mas, ao mesmo tempo, irresistivelmente fissurados pelo outro, desejantes de nos transformar em outra coisa que não nós mesmos.
No espaço desta exposição transitamos entre a solidão dos corpos desmembrados, que se expõem naquilo que são, e o seu erotismo, que os fazem se metamorfosear naquilo que desejam, naquilo que podem ser. Entre o que as coisas são e a sua possibilidade, poderia, quem sabe, surgir algo como um pensamento. Eis, assim, minha própria classificação do mundo com o qual me deparo:
a) Os seres de ar.
b) Os lugares quaisquer.
c) Os nenhuns.
d) Os fantasmas que se movem como loucos.
e) A lentidão. A casa.
f) O som da água.
g) A cidade por um fio.
h) Helicópteros que, de longe, parecem moscas.
i) Os seres que gostam de se cobrir de casulos coloridos.
j) Os textos que gostam de se cobrir de texturas.
k) As texturas que sussurram.
l) Todos os objetos passíveis de caber no mundo.
m) O corrimão de bronze que lembra.
n) As amarelinhas que esquecem.
o) A proliferação dos objetos em outros.
p) O silêncio dos desenhos que fazem dormir as pedras.
q) As pernas bêbadas que tinem.
r) Os que fazem propostas.
André Brasil é Professor da PUC Minas, com mestrado na UFMG e ponte rodoviária para o doutorado na UFRJ. Desenvolve, atualmente, parte da pesquisa na Universidade Paris VIII. Foi curador da MostraVídeo do Itaú Cultural, em Belo Horizonte. Participa da comissão de programação do Videobrasil. Gosta de criar ensaios sobre (e com) as imagens.